Gestão Responsável de Gases Refrigerantes: o impacto ambiental oculto das operações de climatização

Em operações comerciais e industriais, a climatização ainda é tratada, em muitos casos, como uma commodity operacional — sistemas que precisam simplesmente funcionar para garantir conforto térmico e continuidade dos processos. No entanto, por trás dessa aparente simplicidade, existe uma responsabilidade ambiental relevante, frequentemente subestimada pelas organizações.

A gestão de gases refrigerantes está diretamente associada às emissões de gases de efeito estufa (GEE), enquadradas no Escopo 1 do GHG Protocol, e deve ser tratada como um tema estratégico dentro das agendas de sustentabilidade, eficiência operacional e compliance ambiental.

O que você vai aprender neste conteúdo:

  • A escala do problema em operações multisite
  • O custo real dos vazamentos sistêmicos
  • R410A vs R32: a transição em curso
  • Manutenção preventiva como estratégia ambiental
  • Compliance e regulamentações ambientais
  • O retorno sobre o investimento em sustentabilidade
  • Um compromisso que vai além da operação

A escala do problema em operações multisite

Quando analisamos emissões de gases refrigerantes em ambientes corporativos, não estamos falando de equipamentos isolados. Em operações multisite — como shopping centers, redes de varejo, hospitais, hotéis, data centers, parques industriais e complexos corporativos — é comum a existência de centenas ou até milhares de sistemas de climatização operando simultaneamente.

Para dimensionar o impacto ambiental potencial, vale considerar uma situação comum no mercado: o vazamento de aproximadamente 900 gramas de R410A, carga típica de uma unidade de médio porte. Considerando o Potencial de Aquecimento Global (GWP) desse fluido, esse vazamento representa cerca de 1,9 tonelada de CO₂ equivalente lançada na atmosfera.

Em termos comparativos e de ordem de grandeza, esse impacto climático é semelhante ao de um automóvel de passeio rodando algo próximo de 13 mil quilômetros, dependendo do fator de emissão adotado. Quando esse cenário é multiplicado por dezenas, centenas ou milhares de equipamentos, o resultado é um passivo ambiental relevante e muitas vezes invisível aos indicadores tradicionais de gestão.

O custo real dos vazamentos sistêmicos

Estudos e benchmarks do setor indicam que operações comerciais sem um programa estruturado de gestão de refrigerantes podem apresentar taxas médias de vazamento na faixa de 10% a 15% ao ano. Embora esse percentual muitas vezes seja tratado apenas como um custo recorrente de manutenção, seus efeitos ambientais são significativos.

Como exemplo ilustrativo, considere uma operação com 500 equipamentos de climatização, cada um com carga média de 1 kg de R410A. Uma taxa de vazamento anual de 12% representa a liberação de cerca de 60 kg de refrigerante por ano, o que equivale a aproximadamente 125 toneladas de CO₂ equivalente.

Esse volume de emissões corresponde, em termos aproximados, ao impacto anual de dezenas de veículos de passeio em circulação contínua. E esse cálculo considera apenas os vazamentos diretos, sem contabilizar efeitos indiretos, como:

  • aumento do consumo energético de sistemas operando com carga inadequada;
  • maior incidência de falhas e paradas não planejadas;
  • redução da vida útil dos equipamentos;
  • impactos ambientais associados à fabricação e descarte prematuro de ativos.

R410A vs R32: a transição em curso

O R410A foi amplamente adotado como alternativa aos antigos CFCs e HCFCs, eliminando o impacto sobre a camada de ozônio. No entanto, atualmente é reconhecido como um fluido com elevado potencial de aquecimento global, com GWP em torno de 2.088.

Nesse contexto, o R32 vem sendo adotado como uma alternativa de menor impacto climático, com GWP aproximado de 675 — uma redução de cerca de 68% no potencial de aquecimento global quando comparado ao R410A. Em operações de grande escala, essa diferença representa uma redução expressiva nas emissões associadas a eventuais vazamentos.

Além do menor GWP, o R32 apresenta vantagens operacionais relevantes, como:

  • maior eficiência energética em determinadas aplicações;
  • menor massa de fluido refrigerante por sistema;
  • bom desempenho em condições severas de operação.

É importante destacar que o R32 é classificado como A2L (ligeiramente inflamável), o que exige projetos adequados, instalação conforme normas técnicas e capacitação das equipes. Quando corretamente aplicado, trata-se de uma solução tecnicamente segura e ambientalmente mais responsável.

Manutenção preventiva como estratégia ambiental

Em operações de médio e grande porte, a manutenção reativa — baseada apenas na correção de falhas — é ambiental e financeiramente insustentável. Programas estruturados de manutenção preventiva e preditiva são fundamentais para reduzir emissões fugitivas de refrigerantes.

Entre as práticas recomendadas, destacam-se:

  • inspeções periódicas com detecção eletrônica de vazamentos, capazes de identificar perdas mínimas antes que se tornem críticas;
  • monitoramento da carga de refrigerante e do histórico de reposições, permitindo a identificação de padrões anormais;
  • manutenção preditiva, com uso de sensores, automação e análise de dados para antecipar falhas;
  • registro e rastreabilidade completos, documentando intervenções, volumes de fluido adicionados e tendências ao longo do tempo;
  • capacitação contínua das equipes técnicas, com foco em novas tecnologias, boas práticas de manipulação e requisitos ambientais.

Compliance e regulamentações ambientais

A regulamentação relacionada a gases refrigerantes vem se tornando progressivamente mais rigorosa em diferentes regiões do mundo, impulsionada por acordos internacionais e políticas climáticas. Entre as exigências já adotadas ou em implementação, destacam-se:

  • certificação obrigatória de profissionais que manipulam fluidos refrigerantes;
  • registro e rastreamento do consumo e das emissões de gases fluorados;
  • metas de redução de emissões associadas a sistemas de climatização;
  • penalidades para não conformidade;
  • incentivos à adoção de tecnologias de menor GWP.

Mesmo em países onde a fiscalização ainda está em amadurecimento, a tendência regulatória é clara. Organizações que não se antecipam a esse cenário assumem riscos ambientais, financeiros e reputacionais, especialmente em um mercado cada vez mais sensível a critérios ESG.

O retorno sobre o investimento em sustentabilidade

Programas maduros de gestão de refrigerantes e manutenção preventiva têm demonstrado, em benchmarks de mercado, resultados como:

  • redução significativa nos custos com reposição de gás refrigerante;
  • ganhos de eficiência energética e redução do consumo elétrico;
  • aumento da vida útil dos equipamentos;
  • diminuição de paradas não planejadas e impactos operacionais;
  • fortalecimento da reputação corporativa e aderência a práticas ESG.

Os resultados variam conforme o grau de maturidade da operação, mas o conjunto de benefícios econômicos, ambientais e regulatórios reforça que a gestão responsável de refrigerantes deve ser tratada como investimento estratégico.

Um compromisso que vai além da operação

Operar sistemas de climatização em larga escala vai muito além de garantir conforto térmico ou continuidade operacional. Trata-se de assumir uma responsabilidade ambiental com impactos diretos sobre as emissões globais de gases de efeito estufa.

Cada decisão — da escolha de equipamentos e fornecedores à frequência e qualidade da manutenção — possui efeitos mensuráveis sobre o meio ambiente. As tecnologias, ferramentas e conhecimentos necessários para uma operação mais sustentável já estão disponíveis.

O desafio está em elevar a gestão de gases refrigerantes ao patamar estratégico que ela exige, integrando sustentabilidade, eficiência operacional e compliance ambiental em uma única visão de longo prazo.